Alimentar a esperança num país com futuro

Alimentar a esperança num país com futuro

A passagem dos quarenta anos do 25 de Abril sugere-nos meditar no feito em toda a sua extensão. E, meditando, certamente não serão poucos aqueles que se surpreendem e se interrogam: Como foi possível!?

Liberdade de expressão, democracia, eleições livres, descolonização, poder local, férias, subsídio de férias, subsídio de Natal, direito à greve, salário mínimo, reforma, subsídios de doença e de desemprego, saúde, habitação, justiça, solidariedade social, educação, cultura e muitas outras palavras, temas ou expressões que ganharam naquela época um sentido novo e uma dimensão humana, até aí desconhecida da generalidade dos portugueses.

Foram momentos inolvidáveis!

É verdade que nem tudo foi um mar de rosas, enfrentámos e ultrapassámos enormes obstáculos. Portugal estava desestruturado em quase todas as áreas da vida política e social. Na setor da habitação, por exemplo, era dramática a falta de casas. Estimava-se o défice em meio milhão de fogos. Situação complicada e agravada nos anos seguintes com a chegada de mais de meio milhão de retornados de África.

Nas cidades, vilas e aldeias do nosso país a Revolução construía escolas e jardins, abria estradas, fazia pontes e fontes, criava associações e cooperativas, proporcionava esclarecimento, acrescentava cultura ao povo que trabalhava nos escritórios e nas fábricas, nos campos e na pesca.

Foi assim no nosso país. Foi assim em Sesimbra. Foi assim na Quinta do Conde. Havia esperança. Esperança com letra maiúscula, assente na convicção da irreversibilidade do “25 de Abril” e das suas conquistas.

Mas… confiámos em excesso! Deixámo-nos “embarcar no conto do vigário” e, observamos agora, que hipotecámos muitas das conquistas da Revolução. Portugal tornou-se desigual. Há muita pobreza. Há muita miséria. O Poder Local foi mutilado. O acesso à saúde está mais difícil. A educação pública está em causa. Tal como a justiça, a habitação, a solidariedade social, os direitos laborais. Com outras palavras, temos de regresso “a sopa dos pobres”. Parece que as palavras têm agora outro sentido. Parece que foram desvirtuadas. Em muitos portugueses a esperança e a confiança deram lugar à frustração e à resignação. Hoje, instrumentalizados por uma Comunicação Social dominada e controlada, são muitos os que acreditam na inevitabilidade das malfeitorias que nos aplicam.

Resignar? Ceder? Desistir? Trair o País e o 25 de Abril?  Não! Portugal e os portugueses deram provas, noutras ocasiões difíceis da sua História, que são capazes, são competentes e bastantes para vencer as adversidades e os inimigos do progresso.

Trata-se, não apenas de um imperativo constitucional, e aproveito para destacar que a Constituição da República tem no seu preâmbulo a frase lapidar e inspiradora que “afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.”

Não é apenas um imperativo constitucional. É também dar sentido à vida. Lutar no presente para alimentar a esperança e construir um futuro digno, para nós e para os nossos filhos. Na nossa Terra.

Viva o 25 de Abril!

Vítor Antunes
(Junta de Freguesia da Quinta do Conde)