Evocação da Revolução de Abril juntou fado, fogo de artifício e música popular

Evocação da Revolução de Abril juntou fado, fogo de artifício e música popular

Localidade cujo processo de crescimento demográfico e de qualificação urbanística muito deve às perspectivadas criadas com a vitória do golpe militar de 25 de Abril de 1974, a Quinta do Conde evocou, de parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra, a passagem do 40º aniversário da Revolução de Abril, juntando fado, fogo-de-artifício e música popular portuguesa, no programa de festividades conducentes à celebração de tão importante data da nossa história recente.

Mau grado a friagem que se fazia sentir, muitos foram os habitantes da localidade que decidiram rumar ao Parque da Vila para assistir ao espectáculo de Mafalda Arnauth, (concerto em que a fadista intercalou fado com alguns temas de José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto e Manuel Freire), e do Grupo Musical Ecos, afecto ao Grupo Desportivo e Cultural do Conde 2, tomando, assim, parte nos festejos realizados na noite de 24 para 25 de Abril e emprestado com a sua presença o brilho que a efeméride amplamente justificava e impunha.

Terminada a actuação da referida cantora e antes de se escutar Grândola Vila Morena, emblemática canção de José Afonso que serviu de senha ao início das operações militares que devolveram a liberdade aos portugueses, Vítor Antunes, presidente da Junta de Freguesia quintacondense, relembrou um conjunto de direitos sociais e políticas só possíveis com o advento da democracia conquistada há 40 anos.

Entre eles realçou a instituição do salário mínimo para todos os trabalhadores; do direito a férias e de subsídios de férias e de Natal; a existência de sindicatos livres e do direito à greve, a par de apoios sociais na doença e no desemprego e do direito a uma reforma digna; sem deixar de recordar ainda o fim da guerra colonial, a liberdade de associação e reunião e a aprovação da Constituição da República, documento que consagra todos esses valores obtidos há quatro décadas.
Segundo Vítor Antunes, as conquistas alcançadas em 25 de Abril, “tiveram expressão mensurável na saúde; na cultura; na justiça; na habitação; na solidariedade e no emprego”, salientando que a alusão a tais conquistas visa sublinhar “o atraso de um país e de um povo que era obrigado a emigrar em busca de trabalho digno”, porta que alguns hoje voltam a apontar a muitos portugueses.

Por tudo isso, referiu ainda o líder da Junta quintacondense, “os 40 anos do 25 Abril constituem um pretexto para reflectir e meditar, mas também um ponto de partida para defender o qua ainda temos e prosseguir a luta pelos direitos sonegados, nomeadamente a defesa da escola pública, o Serviço Nacional de Saúde, a consagração do poder local, a par do combate à privatização da água e à ruinosa negociata em torno da recolha dos resíduos e do péssimo mapa judiciário que aí vem, ao mesmo tempo que exigimos a construção do novo hospital no Seixal, o lar de idosos reivindicado pelo Centro Comunitário e o atendimento da segurança social com dignidade e respeito pelas pessoas”.

Por seu turno, Augusto Pólvora, Presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, iniciou a sua intervenção citando um excerto do poema “As Portas que Abril Abriu”, da autoria de José Carlos Ary dos Santos, para dessa forma “recordar a memória dos que lutaram contra a ditadura, muitos deles, pagando com a emigração ou até a própria vida”.

De acordo com o edil “prestar tributo à coragem evidenciada pelos capitães de Abril, é falar da memória de um país onde uma reduzida casta de empresários dominava a maioria do povo e contra os quais se rebelaram; é falar da perpetuação do flagelo dos recibos verdes e da impossibilidade de vivermos com um ordenado mínimo que não é actualizado há três anos; do destino dos povos jogado na roleta das agências de ratting e da especulação financeira, mas é também falar da esperança que nos animou em Abril de 74.”

Para o líder camarário, “foi com essa esperança e determinação nascidas com a Revolução, que construímos o Poder Local eleito livremente pelas populações e cuja intervenção permitiu a criação das infra-estruturas básicas no Concelho e na Quinta do Conde; a construção de escolas e um vasto leque de outros equipamentos culturais, desportivos e sociais na localidade que contribuíram para o exponencial aumento da sua população.”

Defendendo que “o Concelho de Sesimbra é hoje um melhor lugar para viver e trabalhar”, Augusto Pólvora, sustentou ainda que “a evolução registada nesta localidade nas últimas décadas, radica na circunstância de se assumir como uma Freguesia de Abril, que apostando na força da sua identidade acredita – tal como todo o concelho de Sesimbra-, que ninguém mais cerra as portas de Abril abriu”.