Evocação da obra e do legado de José Afonso

Evocação da obra e do legado de José Afonso

A passagem dos 30 anos do falecimento de José Afonso, que dia 23 de fevereiro se assinalam, constituiu o pretexto para a Junta de Freguesia da Quinta do Conde aprovar na sua reunião de fevereiro um documento evocativo da sua obra e legado, texto que a seguir se transcreve:

“José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, popularmente designado de José Afonso, é uma figura incontornável da música portuguesa da última metade do século XX, da luta contra o fascismo e da conquista da liberdade. Cantautor, compositor e poeta, residindo em Azeitão, faleceu a 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal.

Personalidade de fortes convicções democráticas, a sua intervenção cívica e cultural confunde-se com a de muitos daqueles que ao longo de décadas combateram a ditadura, pugnando pela instauração da democracia e pela construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, utilizando a cultura como instrumento desse combate.

Filho de um juiz e de uma professora primária, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, indo para Coimbra em 1940 para prosseguir os estudos, cidade onde começou a cantar serenatas e fados tradicionais de Coimbra, acompanhando o orfeão académico daquela universidade.

Cumpre, em Mafra, o serviço militar obrigatório, sendo mobilizado para Macau, mas livrou-se por motivos de saúde, pelo que se viu colocado num quartel na cidade do Mondego, mas debatendo-se com grandes dificuldades económicas para sustentar a família.

Em 1956 vê editado o seu primeiro EP, intitulado Fados de Coimbra e no ano seguinte, actua em Paris, após o que começa a frequentar coletividades e a cantar regularmente em meios populares. Em 1960 é editado o quarto disco. Trata-se de um EP, intitulado Balada do Outono.

Em 1957 dá aulas num colégio privado, indo com frequência a Coimbra, não só para fazer exames na Faculdade de Letras, mas por continuar a ser bastante solicitado para cantar em serenatas, espetáculos e digressões, efetuando digressões com o Orfeão Académico de Coimbra a Angola e em 1960 a Paris e Genebra, onde grava uma serenata para a Eurovisão.

Realiza digressões pela Suíça e Alemanha (onde gravam para a televisão) e Suécia, atuando na Gala dos Reais Clubes Suecos. Em 1963 é editado outro EP de Baladas de Coimbra. Ao longo destes anos, passa por Faro, Aljustrel e Alcobaça como professor.

Em Maio de 1964 atua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção “Grândola, Vila Morena”, que viria a ser a senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para inicio das operações que levaram ao derrube do regime ditatorial, ocorrido a 25 de Abril de 1974.

Expulso do ensino oficial, – depois de ter lecionado, designadamente, em Olhão, Aljustrel e Setúbal-, dedicando- se então a dar explicações e a cantar com assiduidade nas coletividades da Margem Sul e de todo o país, ao mesmo tempo que participa ativamente na organização do movimento sindical, tal como nas ações dos estudantes em Coimbra.

A edição do álbum “Contos Velhos Rumos Novos” e do single “Menina dos Olhos Tristes”, que contém a canção popular “Canta Camarada”, apresenta pela primeira vez outros instrumentos que não a viola ou a guitarra,  tendo-lhe sido atribuído o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco do ano.

Apesar das enormes dificuldades que a PIDE lhe colocava, por via das habituais proibições de atuar em público e dos constrangimentos económicos que caracterizaram a sua vida e da prisão a que foi sujeito,, José Afonso continuou a gravar as suas composições sendo disso exemplo os álbuns “Traz Outro Amigo Também”,(gravado em Londres) e “Cantigas do Maio”, (gravado em Paris), assim como “Venham Mais Cinco”.

A sua discografia inclui ainda “Enquanto Há Força”,” Fura Fura” e “Fados de Coimbra e Outras Canções considerado a mais bela versão do Fado de Coimbra, assim como “Ao Vivo no Coliseu”, “Como se Fora Seu Filho,” e “Galinhas do Mato”, entre outros.

Homem de causas, princípios e valores, defensor dos mais desfavorecidos e explorados, a persistente militância cívica de José Afonso, fez dele uma figura de extrema importância no panorama da música popular portuguesa, pelos caminhos que abriu ao seu desenvolvimento, e um exemplo de despojamento material em favor dos seus concidadãos, que importa sublinhar.

Assim, a Junta de Freguesia da Quinta do Conde, por ocasião dos 30 anos do desaparecimento físico do compositor, poeta e cantor José Afonso, decide evocar a sua memória e o inestimável legado que deixou aos portugueses, felicitando a associação José Afonso, pelo conjunto de iniciativas que este ano promove por todo o país, tendentes a recordar o relevante contributo dado pelo seu patrono no combate pela instauração da democracia em Portugal, pelo fim do obscurantismo e pela democratização da cultura.”