25 de Abril de 2020

25 de Abril de 2020

Vivemos um tempo de dúvidas e incertezas, resultantes de fatores que nos são estranhos, logo que escapam ao domínio da nossa vontade, tal como sucedia há quarenta e seis anos. No entanto, as incertezas que ora marcam o nosso quotidiano, caracterizado por um isolamento social, totalmente avesso ao nosso modo de estar e de sentir, não poderá sobrepor-se aos valores que nos caracterizam enquanto povo e aos ideais que nos mobilizaram e mobilizam.

Se há quarente a seis anos, a luta do povo português era contra um sistema alicerçado na repressão, no arbítrio, no ímpeto da guerra aos povos que lutavam pela sua emancipação e no medo, nos dias que correm as ameaças com que nos confrontamos assumem uma componente muito diferente, ainda que igualmente devastadoras e mortíferas, decorrentes do aparecimento de um vírus que nos tolhe os movimentos, no incute receio e nos suprime direitos.

Estamos, por isso, mobilizados para lutar contra a pandemia que assola os quatro cantos do mundo, tentando, na medida das nossas possibilidades, minimizar as suas consequências junto dos quintacondenses, uma tarefa que se reveste de grande empenho, mas que tem de colher igualmente o contributo de cada cidadão, em ordem a que seja viável voltarmos, o mais rapidamente possível, à normalidade que marcava o nosso dia-a-dia, antes deste interregno.

Neste quadro, é nossa convicção que o conturbado período histórico que atravessamos, tem de atender, por um lado, aos constrangimentos impostos por esta nova realidade, mas, por outro, tem de saber responder à necessidades sociais que a atual conjuntura trouxe a milhares de pessoas, pelo que tal situação não poderá significar o sepultamento dos ideais de justiça que estiveram na génese da revolução de Abril de 74, nem o esvaziamento dos direitos sociais e laborais com ela conquistados.

De acordo com o que ouvimos, vemos e lemos, muitos têm sido aqueles que a pretexto da crise criada pelo aparecimento do vírus que assola as várias regiões do planeta, aproveitaram a oportunidade para lançar mão de expedientes vários, efetuarem despedimentos ou cancelaram o prolongamento do respetivo vinculo laboral quando se trata de contratos a prazo, essa epidemia que desgraçadamente povoa as relações laborais em Portugal.

A nosso ver, as épocas de crise, deviam pautar-se pela solidariedade e pela conjugação de esforços e não por atitudes oportunistas, como as que várias estruturas sindicais tem denunciado nas últimas semanas, as quais refletem a falta de escrúpulos de quem apenas vê o lucro, mandando às malvas os mais elementares direitos de quem trabalha.

Por isso, não obstante a imprevisibilidade destes cinzentos dias, com a consequente alteração das rotinas a que estávamos habituados, a qual impõe este ano, um novo figurino às tradicionais comemorações da Revolução dos Cravos, é nossa convicção de que importa celebrarmos Abril, reafirmando os princípios e valores que lhe são intrínsecos, pelo que se nos afigura ser indispensável reiterar a nossa vontade de os manter vivos.

Assim, tal em anos anteriores, não deixaremos de celebrar essa importante data da nossa história contemporânea, cantando “ Grândola, Vila Morena”, senha de um tempo que nos encheu de solidários sonhos, mesmo que, por força das circunstâncias, a tenhamos de entoar da janela. Mas a plenos pulmões.

VIVA O 25 DE ABRIL!

O Presidente da Junta de Freguesia da Quinta do Conde

Vítor Antunes